A ativista iraniana Narges Mohammadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, foi detida novamente no Irã, conforme denunciado por seus apoiadores nesta sexta-feira (12). A prisão da renomada defensora dos direitos humanos, de 54 anos, ocorre em um momento de intensa repressão no país. Mohammadi, uma das vozes mais proeminentes na luta contra a opressão do regime e as leis rígidas que afetam as mulheres iranianas, foi reconhecida internacionalmente por sua incansável batalha. Sua detenção reflete a persistente perseguição enfrentada por dissidentes e ativistas no Irã, especialmente aqueles que desafiam as políticas governamentais. A comunidade internacional e organizações de direitos humanos observam o caso com preocupação, reiterando a necessidade de respeito às liberdades fundamentais, enquanto a ativista Narges Mohammadi permanece sob custódia.
Uma vida de ativismo e resistência
A voz contra a opressão feminina
Narges Mohammadi dedicou grande parte de sua vida à defesa dos direitos humanos no Irã, tornando-se um símbolo da resistência feminina contra a opressão do regime atual e as severas leis que impactam as mulheres iranianas. Sua trajetória de ativismo começou com a luta contra as penas de morte no país, expandindo-se para a denúncia de tortura e abuso sexual contra mulheres detidas. A ativista, uma engenheira por formação, emergiu como a principal voz da chamada “revolução feminina”, que ganhou destaque após a trágica morte de Mahsa Amini em 2022. Amini, uma jovem iraniana, faleceu sob custódia da polícia de moralidade por suposto uso incorreto do véu islâmico, o que provocou uma onda de protestos massivos em todo o país. Nesses protestos, mulheres desafiaram abertamente o governo, recusando-se a usar o hijab, o véu islâmico obrigatório, um ato de desobediência civil que Mohammadi apoiou e amplificou, mesmo de dentro da prisão. Ela articulou as demandas por liberdade e igualdade, dando visibilidade global à luta das mulheres iranianas por seus direitos mais básicos e contra um sistema que busca silenciá-las.
A recente prisão e o histórico de repressão
Detenção em cerimônia e reações internacionais
A mais recente detenção de Narges Mohammadi ocorreu em Teerã, durante uma cerimônia em memória de um advogado de direitos humanos que havia sido encontrado morto em circunstâncias controversas. Segundo a Fundação Narges Mohammadi, a ativista foi detida “violentamente”, o que levanta preocupações sobre o tratamento dispensado a ela sob custódia. Até o momento, o governo iraniano não havia emitido qualquer confirmação oficial sobre a prisão. Em resposta à detenção, a Fundação Narges Mohammadi divulgou um comunicado exigindo a libertação “imediata e incondicional de todos os indivíduos detidos que participavam da cerimônia”. O comunicado sublinha que “suas prisões constituem uma grave violação das liberdades fundamentais”, ecoando as crescentes preocupações da comunidade internacional sobre o estado dos direitos humanos no Irã.
Este incidente não é um caso isolado na vida de Mohammadi. Ela já foi presa em diversas ocasiões, somando um total de 13 detenções e cinco condenações. Suas sentenças cumulativas chegam a mais de 30 anos de prisão e 154 chibatadas. Sua última prisão havia começado em 2021, após participar de uma homenagem a uma pessoa morta em protestos nacionais, antes de ser temporariamente liberada. Antes da licença por motivos de saúde, ela cumpria uma pena de 13 anos e nove meses por acusações que incluíam conspiração contra a segurança do Estado e propaganda contra o governo iraniano. Mesmo confinada, Mohammadi demonstrou sua resiliência e a persistência de seu ativismo, chegando a participar de uma manifestação em frente à prisão de Evin, em Teerã, onde esteve detida. A Coalizão Livre Narges tem alertado nos últimos meses que o governo iraniano vinha ameaçando prendê-la novamente, o que, de fato, se concretizou, interrompendo qualquer tratamento de saúde em curso.
Desafios à saúde sob custódia
A saúde de Narges Mohammadi tem sido uma preocupação constante de seus apoiadores, especialmente devido às condições estressantes e, muitas vezes, desumanas das prisões iranianas. Relatos de seus defensores indicam que, enquanto estava sob custódia, ela sofreu múltiplos ataques cardíacos, exigindo uma cirurgia de emergência em 2022. No final de 2024, seu advogado revelou que os médicos haviam descoberto uma lesão óssea que levantava suspeitas de malignidade, a qual foi posteriormente removida.
Em dezembro de 2024, a ativista havia recebido uma rara licença temporária para tratar de suas questões de saúde. No entanto, sua condição requer cuidados contínuos. No final de fevereiro de 2025, a Coalizão Livre Narges afirmou que os médicos haviam prescrito uma prorrogação de sua licença médica por pelo menos mais seis meses. Essa recomendação incluía a realização de exames médicos completos e regulares para monitorar a lesão óssea removida de sua perna, sessões de fisioterapia para recuperação pós-cirúrgica e cuidados cardíacos especializados. A equipe médica responsável pela saúde de Mohammadi expressou forte preocupação, alertando que seu retorno à prisão – especialmente sob as condições estressantes de detenção e sem instalações médicas adequadas – poderia agravar seriamente seu bem-estar físico. A recente detenção, portanto, não apenas representa uma grave violação de suas liberdades, mas também coloca em risco sua já fragilizada saúde.
A situação de Narges Mohammadi é emblemática do cenário mais amplo de direitos humanos no Irã, onde ativistas, jornalistas e minorias continuam a enfrentar severas restrições e perseguição. A repressão a vozes dissidentes, especialmente aquelas que defendem os direitos das mulheres e a liberdade de expressão, tem sido uma política persistente do regime. A comunidade internacional frequentemente condena essas práticas, mas a capacidade de influenciar as ações internas do Irã permanece limitada. Mohammadi, com sua determinação inabalável, personifica a luta contínua por dignidade e justiça em um país onde a dissidência é perigosamente silenciada. Sua prisão reiterada serve como um lembrete sombrio dos desafios enfrentados por aqueles que ousam confrontar o poder estabelecido em busca de uma sociedade mais justa e equitativa.
Fonte: https://g1.globo.com