O boxe, um esporte que outrora dominou os canais a cabo e os sistemas de pay-per-view, testemunha uma transformação digital profunda. Durante quase quatro décadas, emissoras como Showtime e HBO levaram lendas como Mike Tyson, Evander Holyfield e Floyd Mayweather diretamente às salas de estar, consolidando uma era de ouro onde as disputas pelo título dos pesos pesados eram eventos televisivos imperdíveis. Contudo, nos últimos cinco anos, o boxe embarcou em uma jornada errante, tornando-se um nômade no vasto e fragmentado universo do streaming. Com a saída das gigantes da TV a cabo, o esporte agora se apoia em uma constelação de serviços digitais que buscam capitalizar a atratividade do conteúdo esportivo ao vivo, uma das últimas experiências verdadeiramente coletivas da televisão moderna.
O adeus à TV a cabo e a nova paisagem do boxe
Por décadas, o boxe e a televisão a cabo foram sinônimos de grandes espetáculos e arrecadações milionárias. As parcerias entre as principais promotoras de boxe e canais como Showtime e HBO estabeleceram um modelo de negócio lucrativo que atraía milhões de espectadores para eventos de pay-per-view. No entanto, essa era chegou ao fim de forma abrupta. Showtime e HBO encerraram suas transmissões de boxe, citando orçamentos cada vez mais restritos e uma mudança fundamental em suas filosofias de conteúdo. Essa decisão marcou o fim de um capítulo e a abertura para uma nova e incerta fase para o esporte.
A era de ouro e o declínio das emissoras tradicionais
A saída das emissoras tradicionais deixou um vácuo considerável no ecossistema do boxe. Stephen Espinoza, ex-presidente da Showtime Sports, articulou a incerteza que paira sobre o esporte. Segundo ele, as emissoras analisaram o cenário e concluíram que “esse não é um ambiente no qual queremos entrar”. Diferente de ligas centralizadas como a NBA e a NFL, que conseguem faturar bilhões com direitos de transmissão devido à sua estrutura unificada, o boxe opera com práticas comerciais descentralizadas. Promotores rivais frequentemente fecham contratos de exclusividade com plataformas específicas para seus lutadores, criando barreiras contratuais e dificultando a padronização da distribuição. Isso forçou o boxe a uma constante busca por novos lares, adaptando-se a um ambiente midiático cada vez mais fragmentado.
Plataformas digitais: Modelos de negócio e desafios contratuais
Apesar da fragmentação e da incerteza, os eventos esportivos ao vivo continuam sendo um ímã para o público, o que motiva as plataformas de streaming a experimentar com o boxe. Esse cenário transformou a forma como os fãs interagem com o esporte, exigindo, muitas vezes, múltiplas assinaturas para acompanhar as principais lutas. Para ser um fã fervoroso de boxe em 2025, é praticamente indispensável ter acesso a serviços como Netflix, Prime Video e DAZN, uma plataforma esportiva de origem europeia que se tornou um pilar para o esporte.
A fragmentação e o papel dos promotores
O modelo de monetização no streaming varia significativamente. Enquanto algumas das lutas mais importantes na DAZN e no Prime Video ainda operam no formato de pay-per-view, cobrando dos fãs até US$ 79,99 (cerca de R$ 443) por evento – uma estratégia herdada da televisão a cabo – a Netflix adota uma abordagem distinta. As lutas transmitidas pela gigante do streaming são “gratuitas” para seus assinantes, estando incluídas no custo da mensalidade. Essa divergência de modelos reflete a tentativa das plataformas de encontrar a fórmula ideal para atrair e reter públicos, em um esporte onde a ausência de uma entidade centralizadora como a NBA ou a NFL, que negocia pacotes de direitos de transmissão bilionários, impõe desafios únicos para a distribuição e monetização. A competição entre promotores por contratos de exclusividade com diferentes serviços digitais agrava a fragmentação, tornando a navegação complexa tanto para plataformas quanto para o público.
O impacto da Netflix e a ascensão de novos players no ringue digital
A Netflix emergiu como um player surpreendente e disruptivo no cenário do boxe. Seu modelo de inclusão de grandes lutas no plano de assinatura tem o potencial de democratizar o acesso e expandir a base de fãs. Um exemplo notável foi o combate entre a estrela das redes sociais Jake Paul e Anthony Joshua, ex-campeão dos pesos pesados e medalhista de ouro olímpico. Apesar de Paul, de 28 anos, ser considerado azarão e a disparidade de habilidades levantar questões sobre a legitimidade do confronto, o evento gerou uma repercussão massiva.
Discussões semelhantes ocorreram no ano passado, quando Paul derrotou um apático Mike Tyson, de 59 anos. Mesmo com as preocupações sobre a competitividade e problemas técnicos na transmissão, a Netflix reportou que 60 milhões de residências assistiram à luta ao vivo. Esse sucesso estrondoso encorajou a empresa a organizar três lutas subsequentes, consolidando sua aposta no esporte. Brandon Riegg, vice-presidente de conteúdo não ficcional da Netflix, afirmou: “Quando houver lutas convincentes a serem travadas, nós as defenderemos”. Com mais de 300 milhões de assinantes, a Netflix talvez tenha estabelecido um padrão irreal com o espetáculo Paul vs. Tyson, dado o apelo único de ambos os lutadores para diferentes gerações.
Nakisa Bidarian, sócia de Jake Paul, reconheceu o caráter singular do evento, afirmando que “impactou seis gerações diferentes da humanidade”. A Netflix, que não possui contratos de exclusividade com promotores, planeja transmitir entre uma e cinco lutas de grande repercussão por ano, uma estratégia que se alinha à sua incursão em eventos ao vivo, como a parceria de três anos para transmitir jogos da NFL no Dia de Natal. Em setembro, a empresa transmitiu uma aguardada luta pelo campeonato entre Terence Crawford e Canelo Alvarez, que, segundo a companhia, alcançou mais de 41 milhões de espectadores. Este evento foi organizado em parceria com a TKO, empresa controladora do Ultimate Fighting Championship e da World Wrestling Entertainment, e Turki al-Sheikh, presidente do departamento de entretenimento do governo saudita. A TKO, por sua vez, pretende lançar uma liga de boxe no Paramount+ no próximo ano, com lutas incluídas na assinatura regular.
Para os fãs mais ávidos de boxe, o DAZN consolidou-se como um destino principal. Embora detenha direitos internacionais da NFL, futebol e outros esportes, a plataforma é notória nos Estados Unidos por sua programação de boxe. Em 2024, a empresa se aproximou da marca de 20 milhões de assinantes pagos globalmente. Pete Oliver, CEO da DAZN para mercados em crescimento, destacou que a saída das redes de TV a cabo criou uma grande lacuna a ser preenchida, e a DAZN respondeu transmitindo mais de 100 lutas de boxe anualmente. A Amazon, com sua parceria com a Premier Boxing Champions via Prime Video, mantém uma postura mais reservada sobre sua estratégia, recusando-se a comentar. Em meio a essa incerteza e constante experimentação, reside uma oportunidade significativa para o boxe. Claressa Shields, campeã peso-pesado feminina com uma luta marcada para fevereiro na DAZN, observa que a fragmentação do esporte ensinou aos lutadores a importância de navegar em espaços digitais como YouTube e Twitch. Ao se promoverem ativamente, os atletas podem tornar suas lutas mais atraentes tanto para os fãs quanto para as empresas de mídia, redefinindo o caminho para o sucesso no novo panorama digital do boxe.
Fonte: https://www.estadao.com.br