A 100ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre promete ser um marco na história do esporte brasileiro. Nesta quarta-feira, 31 de dezembro, 55 mil atletas, entre profissionais e amadores, tomarão as ruas da capital paulista para percorrer os 15 quilômetros do trajeto da mais importante corrida de rua da América Latina. O evento, que celebra seu centenário, gerou um interesse sem precedentes, refletido no encerramento recorde das inscrições e na mobilização de corredores de todo o Brasil e do mundo. Expectativas elevadas cercam esta edição comemorativa da São Silvestre, que busca reafirmar sua tradição e popularidade.
Inscrições recorde e desafios de acesso
A procura intensa e as reclamações
A popularidade da Corrida Internacional de São Silvestre, tão intrínseca à celebração do Réveillon brasileiro, atingiu um novo patamar na edição de seu centenário. As inscrições para a prova foram encerradas em tempo recorde, em apenas seis horas após a abertura das 50 mil vagas em setembro. A alta demanda, no entanto, veio acompanhada de desafios significativos para os interessados. Relatos de lentidão nas filas virtuais e instabilidade da plataforma de vendas foram generalizados, gerando frustração e queixas de muitos que não conseguiram garantir um lugar na centésima edição, especialmente corredores habituais do evento.
Entre os desapontados estava Priscila Leite, manicure e corredora amadora, que expressou seu descontentamento. “O processo todo foi muito desorganizado. Fiquei horas na fila e não consegui me inscrever. Corri todas as últimas cinco edições e esperava participar da centésima. Não entendi o que fizeram neste ano”, lamentou. A inscrição mais econômica, que incluía o kit básico, custava R$ 319,90, um valor considerável para muitos. Diante da pressão e do grande volume de reclamações, a organização da prova se desculpou pelos “inconvenientes gerados” e, em uma medida de contingência, abriu um lote extra de 5 mil vagas, sorteadas entre os que manifestaram interesse. Esse episódio reforça o tamanho e o alcance que a São Silvestre alcançou, consolidando-se como a maior corrida de rua da América Latina, impulsionada este ano pelo simbolismo do centenário e por uma premiação histórica.
Premiação e crescente participação feminina
Incentivo e destaque para atletas mulheres
A edição comemorativa da São Silvestre deste ano se destaca não apenas pelo seu valor histórico, mas também pela expressiva premiação de R$ 295 mil, com os campeões faturando R$ 62.600 cada. Este incentivo financeiro adicional certamente contribui para a atração de atletas de alto nível. Além disso, a prova marca um avanço notável na participação feminina. Serão 25.861 corredoras, representando 47,02% do total de 55 mil atletas inscritos para 2025. Este número significa um salto significativo em comparação aos 38,44% registrados em 2024, evidenciando o crescente engajamento das mulheres no esporte e na mais icônica corrida de rua do Brasil.
Uma das grandes apostas do Brasil para esta edição é a baiana Núbia Oliveira, de 23 anos. A atleta, que conquistou o terceiro lugar no ano passado em uma arrancada memorável na reta final, tem acumulado bons resultados em 2024 e sido convocada para a seleção brasileira. Integrante do programa de alto rendimento do Exército, o desempenho na última edição garantiu a Núbia mais apoio e parcerias. Ela é vista como uma das principais esperanças para quebrar o jejum de 19 anos sem vitória de uma atleta brasileira, desde a conquista de Lucélia Peres em 2006. Núbia revelou ter tido uma temporada excelente, aprimorando suas marcas em todas as distâncias, de 5 a 21 km. “Tive uma excelente temporada. Evoluí muito e aprimorei algumas coisas neste ano”, afirmou. Mantendo seus métodos de treinamento, a corredora adicionou um período de treinos em altitude na Colômbia, ao lado de seu treinador, o que ela considera “fundamental” para seu desempenho na São Silvestre.
Distribuição regional e internacional
Enquanto a participação feminina cresce, houve uma queda proporcional entre os homens, que passaram de 61,55% em 2024 para 52,98% nesta edição. A maioria dos participantes da corrida é proveniente do estado de São Paulo, com 30.362 atletas, representando 55% do total de inscritos. Em seguida, destacam-se Rio de Janeiro (3.064), Minas Gerais (2.590) e Paraná (2.571). Analisando por regiões, o Sudeste lidera com ampla vantagem, somando 36.661 corredores, seguido pelo Sul (4.712). O Centro-Oeste (2.770) e o Nordeste (2.698) vêm logo depois, enquanto o Norte do país contribui com 1.533 inscritos.
A São Silvestre também reafirma seu caráter internacional, com a expectativa de cerca de 4.600 atletas estrangeiros, representando aproximadamente 44 países. Corredores de nações como Áustria, Alemanha, África do Sul, Colômbia, Espanha e Estados Unidos estarão presentes, evidenciando o prestígio global da prova. No entanto, a hegemonia continua sendo dos quenianos, país que historicamente domina a competição, tendo vencido as últimas oito edições da prova feminina e três das últimas cinco entre os homens.
O desafio brasileiro e a hegemonia estrangeira
A esperança masculina e o jejum de vitórias
No cenário masculino, a expectativa brasileira recai mais uma vez sobre Johnatas Cruz. O ex-gari, mineiro de 34 anos, foi o brasileiro mais rápido da São Silvestre em 2023 e 2024, terminando em sexto e quarto lugares, respectivamente. Ele desponta como o corredor com mais possibilidades de destronar os hegemônicos quenianos e etíopes. A última vitória de um atleta brasileiro na prova masculina ocorreu há 15 anos, com Marílson dos Santos em 2010. Marílson, tricampeão da corrida, também conquistou os títulos em 2003 e 2005. Ele recorda a experiência única da São Silvestre: “A São Silvestre era muito diferente de tudo o que eu já tinha corrido no mundo. O povo gritando, a gente ia até a exaustão, até onde tinha força.” A busca por um novo campeão brasileiro continua sendo um dos enredos mais aguardados da prova.
Um século de história e evolução
A concepção da corrida e os primórdios
A Corrida Internacional de São Silvestre, que completa seu centenário, nasceu da visão do jornalista Cásper Líbero. Inspirado por um evento similar que testemunhou em Paris em 1925, Cásper, um apreciador da cultura francesa, trouxe a ideia de realizar uma corrida de rua no último dia do ano para a capital paulista. A primeira edição foi realizada na noite de 31 de dezembro de 1925, contando com cerca de 60 inscritos, embora apenas 48 atletas tenham efetivamente competido. A largada, em frente ao Parque do Trianon, foi acompanhada com grande entusiasmo pelo público. O primeiro vencedor da prova foi Alfredo Gomes, um corredor que ganhou o apelido de “Rei do Fôlego”.
Em meio ao improviso natural da época, o trajeto inicial de 8,8 quilômetros foi completado em 33 minutos e 21 segundos. As condições eram peculiares: alguns corredores competiam descalços, enquanto a maioria utilizava meias e sapatilhas de couro com solas fixadas por pequenos pregos, as chamadas tachinhas. A escolha do nome da prova, São Silvestre, refletia a fé católica de Cásper Líbero, sendo 31 de dezembro o dia dedicado à devoção de São Silvestre I, papa que, por volta dos anos 300, estabeleceu a paz na Igreja após o imperador romano Constantino pôr fim à perseguição aos cristãos.
Transformações ao longo do tempo
Ao longo de um século, a São Silvestre passou por inúmeras transformações. Inicialmente, a prova era restrita a competidores homens e brasileiros. Somente em 1945 os primeiros atletas estrangeiros, um chileno e um uruguaio, estrearam na competição. O horário da corrida também mudou diversas vezes: já foi noturna, vespertina e, desde 2012, é disputada pela manhã. O percurso, que era de 8,8 km, foi estendido para 15 quilômetros em 1991, consolidando o formato atual.
Um marco fundamental na história da São Silvestre foi a criação da prova feminina em 1975, que desde então tem visto uma participação crescente de mulheres. A recordista de vitórias na competição é uma mulher: a portuguesa Rosa Mota, que conquistou o título seis vezes seguidas, entre 1981 e 1986. Entre os homens, o queniano Paul Tergat detém o maior número de triunfos, com cinco vitórias (1995, 1996, 1998, 1999 e 2000). Tergat, que esteve em São Paulo para inaugurar o Hall da Fama da São Silvestre, relembra a atmosfera da corrida: “Lembro dos espectadores, as pessoas que amam o esporte. Quando estava cansado, subindo a ladeira, eles ficavam torcendo por você de todos os lados. Era incrível”. Desde 1945, o Brasil acumula 11 vitórias masculinas e cinco femininas. No entanto, o Quênia é o país com maior número de campeões, somando 17 títulos entre os homens e 18 entre as mulheres, o que solidifica sua posição de potência na corrida.
A 100ª edição da São Silvestre é, portanto, um momento de celebração da história e da evolução de uma prova que transcendeu o mero evento esportivo, tornando-se um verdadeiro fenômeno cultural e social. Com sua rica trajetória, a corrida continua a inspirar gerações de atletas e espectadores, mantendo viva a tradição de encerrar o ano com energia, superação e a inconfundível vibração das ruas de São Paulo.
Fonte: https://www.estadao.com.br