Uma nova e intensa onda de protestos varre o Irã, desencadeada por um aprofundamento da crise econômica que atinge o país. As manifestações, que eclodiram há cerca de uma semana, já se consolidam como os maiores levantes populares desde a chamada Revolução Feminina de 2022. Com o aumento do custo de vida e a crescente insatisfação, manifestantes saem às ruas em diversas cidades, confrontando as forças de segurança e expressando seu descontentamento. Os primeiros dias foram marcados por violentos embates e, lamentavelmente, a morte de ao menos uma pessoa, sublinhando a gravidade da situação e a escalada da tensão em território iraniano. A população exige respostas.
Escalada da tensão e primeiros confrontos
A onda de manifestações
Os protestos atuais, iniciados no final de dezembro de 2025, representam um novo capítulo na história recente de turbulências sociais no Irã. O estopim foi o vertiginoso aumento do custo de vida, com a inflação galopante erodindo o poder de compra da população e as perspectivas econômicas se deteriorando rapidamente. O descontentamento, inicialmente focado em questões financeiras, rapidamente evoluiu para uma crítica mais abrangente ao governo e suas políticas. As ruas de Teerã e de outras cidades iranianas, incluindo localidades do interior, tornaram-se o palco de marchas e confrontos, ecoando um clamor por mudanças que ressoa em diversas camadas da sociedade.
A intensidade dos protestos surpreendeu as autoridades, que rapidamente mobilizaram suas forças para conter as manifestações. No quinto dia de levantes, a quinta-feira, 1º de janeiro, testemunhou alguns dos mais violentos embates, com relatos de confrontos diretos entre civis e as forças de segurança. A escalada sugere que o movimento não é isolado, mas sim uma expressão de uma frustração acumulada, agora exacerbada pela realidade econômica.
Vítimas e a atuação das forças de segurança
A morte em Kuhdasht
A violência dos confrontos resultou em perdas humanas. A imprensa estatal iraniana confirmou a morte de um membro das forças de segurança, a primeira vítima oficialmente registrada neste ciclo de protestos. O falecido era um jovem de 21 anos, integrante da milícia paramilitar Basij, da cidade de Kuhdasht, localizada na província de Lorestão, no oeste do país. De acordo com o vice-governador da província, Said Pourali, o jovem foi “morto por arruaceiros enquanto defendia a ordem pública”. Este incidente sublinha a natureza perigosa e o potencial de escalada dos confrontos, onde a linha entre manifestantes e “arruaceiros” muitas vezes se torna tênue na retórica oficial.
O Basij é uma força paramilitar com forte ligação ideológica ao regime iraniano, frequentemente utilizada para reprimir dissidência interna e manter a “ordem moral”. Sua presença nas ruas é um indicativo da seriedade com que o governo encara os protestos e de sua disposição em usar a força para controlá-los. A morte de um de seus membros pode ter implicações significativas para a resposta governamental futura, potencialmente endurecendo a postura das autoridades e elevando o nível de confronto em todo o país.
O epicentro dos confrontos em Lordegan
Uma das cidades mais afetadas pelos confrontos foi Lordegan, uma localidade de aproximadamente 40.000 habitantes, situada a cerca de 650 quilômetros da capital, Teerã. Na quinta-feira, manifestantes e forças de segurança se enfrentaram em um cenário de crescimentos atos de vandalismo e tentativas de ocupação de prédios públicos. Relatos indicam que alguns manifestantes começaram a atirar pedras contra edifícios administrativos da cidade, um claro sinal da extensão do seu descontentamento e da frustração acumulada contra as instituições governamentais.
Entre os alvos dos ataques estavam o gabinete do governador, a mesquita central, a Fundação dos Mártires – uma instituição simbólica ligada aos valores da revolução –, a prefeitura e diversas agências bancárias. Após esses incidentes, os grupos se dirigiram à sede do governo regional, indicando uma ação coordenada e um objetivo claro de desestabilizar a administração local. Em resposta, a polícia recorreu ao uso de gás lacrimogêneo para dispersar as multidões, uma tática comum na contenção de protestos no Irã. Os eventos em Lordegan são um microcosmo da tensão que se espalha por diversas províncias, mostrando que a insatisfação não se restringe aos grandes centros urbanos, mas permeia o interior do país.
Contexto histórico e desafios persistentes
Os atuais protestos não surgem em um vácuo; eles são a mais recente manifestação de um profundo mal-estar social e econômico que assola o Irã há anos. A comparação com a “Revolução Feminina” de 2022 é crucial para entender a magnitude do levante atual. Naquele ano, a morte de Mahsa Jina Amini, uma jovem de 22 anos, sob custódia da polícia da moralidade por supostamente não usar o hijab corretamente, desencadeou uma onda de manifestações em todo o país. Aqueles protestos, liderados em grande parte por mulheres e jovens, questionaram não apenas as leis do véu, mas a própria estrutura teocrática e repressiva do regime. Embora o foco inicial fosse os direitos das mulheres e as liberdades civis, rapidamente evoluíram para demandas por uma mudança política mais ampla.
A “Revolução Feminina” de 2022 revelou a fragilidade do controle social do governo e a capacidade da população de se mobilizar em larga escala. A repressão foi severa, com milhares de prisões e centenas de mortes, mas a semente da dissidência permaneceu. Hoje, a crise econômica adiciona uma nova camada de urgência e desespero. O Irã enfrenta anos de sanções internacionais, que têm devastado sua economia, limitando severamente as exportações de petróleo e o acesso a mercados financeiros globais. A corrupção interna, a má gestão e os gastos com programas militares e regionais também contribuem para a escassez de recursos, resultando em altas taxas de desemprego, inflação galopante e uma queda acentuada no padrão de vida da população.
A junção de repressão política, falta de liberdades civis e uma economia em colapso cria um cenário explosivo. Muitos iranianos sentem-se sem perspectivas, desiludidos com as promessas do governo e sem canais legítimos para expressar suas queixas. A internet e as redes sociais, apesar das restrições e censuras, continuam a ser ferramentas importantes para a organização e disseminação das informações sobre os protestos, apesar dos esforços do regime para cortar o acesso ou limitar a comunicação. A comunidade internacional observa com cautela, ciente do delicado equilíbrio geopolítico na região e das implicações de uma maior instabilidade no Irã, um país estratégico no Oriente Médio. Os atuais protestos representam um desafio significativo para o governo iraniano, que precisa encontrar uma forma de apaziguar a crescente insatisfação popular, ou arriscar-se a um aprofundamento da crise política e social.
Fonte: https://g1.globo.com