A Colômbia está prestes a vivenciar uma inovação sem precedentes nas eleições legislativas com a candidatura de Gaitana, uma inteligência artificial que se apresenta como uma mulher de pele azul. Gaitana concorre simultaneamente ao Senado e à Câmara de Representantes, representando a Circunscrição Especial Indígena. Seu criador, Carlos Redondo, compartilhou detalhes sobre o projeto, que busca digitalizar a cosmovisão indígena e afrodescendente. A proposta tem gerado discussões sobre a inclusão de novas vozes na política, especialmente no contexto atual da sociedade colombiana, onde a desconfiança nas instituições é crescente.
A proposta da inteligência artificial Gaitana
Gaitana opera com uma abordagem participativa, onde os cidadãos podem enviar temas que a IA sintetiza e apresenta à comunidade. Segundo Redondo, a IA não apenas reduz conteúdos complexos, como também promove a discussão entre os mais de 10 mil integrantes da comunidade de Gaitana, que inclui indígenas e afrodescendentes. A capacidade de Gaitana de coletar e contabilizar opiniões permite que a decisão final seja baseada na maioria, seguindo o princípio de consenso característico das comunidades que ela representa.
Funcionamento e limitações da IA
Apesar da inovação, a candidatura de Gaitana enfrenta desafios legais, uma vez que, na Colômbia, não é permitido registrar uma IA como candidata. Para contornar essa limitação, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que Redondo e outro representante humano assumam os assentos e atuem em nome da IA, repetindo as decisões geradas por ela. Redondo admite que a tecnologia ainda é limitada, especialmente em questões de segurança de dados e na capacidade de lidar com opiniões divergentes em grande escala.
A reação do público e o impacto ambiental
A iniciativa de Gaitana tem chamado a atenção, especialmente de jovens, que representam uma parcela significativa do eleitorado. Pesquisas indicam que apenas um terço dos eleitores com menos de 24 anos pretende votar, o que levanta questões sobre a eficácia das abordagens tradicionais de engajamento político. Redondo acredita que a proposta de Gaitana é uma resposta à insatisfação popular com o sistema político, que, segundo ele, tem se concentrado em tópicos irrelevantes, como homenagens a pratos típicos, em vez de abordar questões mais significativas para a sociedade.
Desafios éticos e de consenso
Um dos pontos críticos do projeto é o que aconteceria se a maioria dos usuários decidisse boicotar as decisões propostas por Gaitana. Redondo esclarece que, se o consenso da comunidade decidir por uma ação que contrarie a proposta da IA, os representantes humanos devem respeitar essa decisão. Ele argumenta que isso exigiria uma quantidade significativa de participantes, o que torna a possibilidade pouco provável, mas não impossível. Essa dinâmica levanta questões sobre a natureza do consenso e a representatividade em um sistema político tradicional.
Inovação ou risco para a democracia?
A candidatura de Gaitana representa um passo ousado em direção à inovação política, mas também suscita debates sobre a desumanização do processo legislativo. Redondo defende que a IA não apenas elimina a necessidade de uma equipe extensa de suporte, mas também busca humanizar as decisões políticas através de dados e consenso. Contudo, a eficácia desse modelo ainda é incerta e depende da aceitação e participação da sociedade civil, especialmente em um país com uma história política complexa.
Fonte: https://g1.globo.com