Cientistas da UFRJ fizeram uma descoberta preocupante no Rio de Janeiro: o antidepressivo sertralina foi encontrado no cérebro de tubarões-martelo. A revelação vem do projeto Eco Shark, coordenado pela Dra. Mariana Bata Alonso, que analisa carcaças de tubarões desde 2018.
A pesquisa, que busca entender os efeitos de fármacos como a sertralina no ambiente marinho, acende um alerta sobre a contaminação dos oceanos por medicamentos de uso humano, especialmente após o aumento do consumo dessas substâncias.
A equipe do Eco Shark, da UFRJ, ampliou o foco do trabalho para os chamados "contaminantes emergentes", como fármacos, devido ao consumo crescente de antidepressivos e ansiolíticos pela população, impulsionado pela pandemia de Covid-19.
A sertralina, em particular, demonstrou um comportamento seletivo. Análises em diversos órgãos dos tubarões, incluindo cérebro, fígado e brânquias, revelaram a presença do fármaco em todos. Contudo, a maior concentração foi identificada no cérebro.
Essa preferência se explica pela natureza lipofílica (afinidade por gordura) da sertralina. O cérebro, rico em lipídios, torna-se um local de acúmulo ideal para a substância, agindo ali de forma semelhante ao efeito em humanos.
A Dra. Mariana Alonso explica que a origem desses medicamentos no ambiente marinho é o consumo humano. Cerca de 1% da sertralina ingerida não é metabolizada e acaba sendo excretada, alcançando os sistemas de saneamento.
O problema reside na incapacidade das estações de tratamento de esgoto atuais em remover esses fármacos. Assim, o medicamento se deposita no sedimento marinho, sendo ingerido por pequenos organismos como camarões, que, por sua vez, são consumidos por peixes maiores, até chegar à dieta dos tubarões.
A professora destaca a importância dos tubarões como indicadores cruciais da saúde ambiental. Longe de serem vilões, eles funcionam como uma sentinela, revelando o impacto da poluição humana nos ecossistemas e alertando sobre riscos potenciais para a nossa própria saúde.
Um apelo importante é para que a população não consuma carne de cação – que é, na verdade, carne de tubarão. Essas espécies, como o tubarão-martelo, já enfrentam ameaça crítica de extinção no Brasil. Além disso, a pesquisadora reforça para jamais descartar medicamentos no vaso sanitário, evitando que cheguem diretamente ao mar.
A pesquisa continua, reforçando o alerta sobre a necessidade de melhorias no saneamento básico e na conscientização ambiental.