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Brasil espera assinar Acordo Mercosul-UE, mas salvaguardas geram alertas

© Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A expectativa do governo brasileiro é que o aguardado acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) seja formalmente assinado em 20 de julho, durante a 67ª Cúpula do Mercosul e Estados Associados. Este marco, resultado de mais de duas décadas de negociações, é visto como um passo crucial para a integração comercial dos blocos. No entanto, persistem preocupações significativas em relação às salvaguardas que o bloco europeu pretende apresentar. Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe de um ministério brasileiro, expressou cautela, afirmando que, embora a assinatura seja o objetivo, as salvaguardas representam um ponto de apreensão, indicando os desafios remanescentes para a plena concretização do pacto.

Acordo à vista: expectativas e ressalvas

A iminente assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia marca um ponto alto na agenda diplomática e econômica dos países envolvidos. O encontro de chefes de Estado, agendado para 20 de julho em Foz do Iguaçu, Paraná, contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhando a importância do evento. Este momento é o ápice de extensas negociações que visam fortalecer os laços comerciais e políticos entre as duas regiões, representando um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas e um PIB combinado de cerca de US$ 22 trilhões.

A Cúpula e os debates cruciais

As atividades da cúpula terão início em 19 de julho, um dia antes da reunião dos chefes de Estado, com um encontro prévio de ministros das áreas econômicas dos países-membros do Mercosul. Nessas sessões preparatórias, as autoridades abordarão uma série de temas de interesse comum, incluindo os desafios impostos pelas mudanças climáticas e as estratégias para mitigar seus impactos na economia e na sociedade.

Um dos pontos centrais da agenda é a expansão do bloco. O Brasil tem trabalhado intensamente para concretizar a adesão da Bolívia como Estado Parte do Mercosul. Representantes brasileiros têm se reunido frequentemente com autoridades bolivianas, com o objetivo de acelerar esse processo. Contudo, a secretária Padovan ressalta a necessidade de verificar se todos os pré-requisitos para a plena integração foram cumpridos pelo país andino. Além disso, há um movimento crescente para aproximar o Mercosul de nações da América Central e do Caribe, com as conversas com a República Dominicana já mostrando progressos significativos.

Internamente, o Brasil mantém sua postura de longa data pela integração dos setores automotivo e açucareiro na Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul. A proposta visa abandonar as atuais exceções e acordos bilaterais, como o existente entre Brasil e Argentina, para estabelecer uma política comum e gradual que fortaleça a coesão econômica do bloco. Outra iniciativa relevante desta edição da cúpula é a inclusão de uma cúpula social, que oferecerá às entidades da sociedade civil uma plataforma para apresentar suas demandas e preocupações diretamente aos chefes de Estado, promovendo uma maior participação e representatividade.

O nó das salvaguardas europeias

Apesar do otimismo em torno da assinatura do acordo Mercosul-UE, as salvaguardas propostas pelo parlamento europeu permanecem como o principal ponto de discórdia e preocupação para o lado sul-americano. Estas medidas são concebidas para proteger o mercado europeu contra a entrada de produtos agropecuários do Mercosul, que muitas vezes possuem condições de concorrência mais favoráveis em comparação com os produtos do continente.

Protecionismo e disputas comerciais

A França, um dos maiores produtores de carne bovina da União Europeia, tem sido o país mais vocal e resistente ao acordo, impondo significativas dificuldades. Em diversas ocasiões, representantes franceses classificaram o pacto como “inaceitável”, argumentando que ele não leva em consideração as rigorosas exigências ambientais aplicadas à produção agrícola e industrial europeia. Agricultores em todo o continente têm realizado protestos contínuos, expressando temores de que o acordo resultaria em importações de commodities sul-americanas a preços mais baixos, especialmente carne bovina, que, segundo eles, não cumprem os mesmos padrões de segurança alimentar e ecológicos exigidos pelo bloco europeu.

Do lado brasileiro, as preocupações não são menores. Há um receio de que as práticas sustentáveis, ou a falta delas, possam ser utilizadas pela União Europeia como pretexto para implementar medidas protecionistas, blindando seu mercado contra produtos oriundos de países de fora do bloco. Essa tensão reflete a complexidade das negociações e a busca por um equilíbrio entre a abertura comercial e a proteção dos interesses domésticos de ambos os lados.

Um histórico de negociações e desafios

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia é fruto de um processo negocial que se estende por mais de 26 anos. As conversações foram iniciadas há mais de duas décadas, e os dois blocos, representados pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai de um lado, e pelos 27 estados-membros da UE do outro, concluíram as negociações em dezembro do ano passado.

A formalização do acordo envolve a assinatura de dois textos distintos. O primeiro, de natureza econômico-comercial, terá vigência provisória, permitindo que parte das cláusulas entre em vigor mais rapidamente. O segundo é um acordo completo e abrangente, que substituirá o provisório quando for totalmente ratificado. Em setembro, a Comissão Europeia submeteu formalmente ambos os documentos ao Parlamento Europeu e aos estados-membros para análise e aprovação.

Para que o acordo seja plenamente implementado na União Europeia, é necessário um processo de ratificação complexo. O Parlamento Europeu deve aprová-lo com a maioria simples dos votos dos deputados (50% mais um), um estágio que pode enfrentar resistências significativas, especialmente de países como a França. Adicionalmente, o texto precisa ser ratificado por pelo menos 15 dos 27 países-membros, representando no mínimo 65% da população total da União Europeia. Este processo, que envolve procedimentos legislativos nacionais em cada país, pode levar vários anos até ser concluído.

Paralelamente, os países do Mercosul também precisam seguir seus próprios trâmites internos, submetendo o documento final aos seus respectivos parlamentos para aprovação. A entrada em vigor no Mercosul, no entanto, é individual, o que significa que cada estado-membro pode implementar o acordo assim que o ratificar, sem a necessidade de aguardar a aprovação de todos os parlamentos dos quatro países-membros. Este longo e detalhado processo evidencia a magnitude e a importância estratégica do acordo para ambos os blocos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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