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Como gigantes do futebol brasileiro vencem contra a lógica

Estadão

O futebol brasileiro, palco de paixões intensas e reviravoltas dramáticas, frequentemente desafia a lógica e a racionalidade. Clubes gigantes, dotados de torcidas massivas e histórias gloriosas, demonstram uma capacidade peculiar de superar adversidades monumentais, conquistando títulos mesmo quando mergulhados em profundas crises financeiras, institucionais ou morais. A trajetória de equipes como Flamengo e Corinthians, em diferentes momentos de sua história recente, ilustra vividamente essa resiliência. Essas agremiações conseguem, por vezes, transcender os problemas estruturais e as deficiências de gestão, transformando o caos em combustível para campanhas vitoriosas que, à primeira vista, parecem improváveis ou até mesmo milagrosas. Este fenômeno levanta questões sobre a relação entre o sucesso esportivo e a saúde administrativa dos clubes no cenário nacional.

A saga das vitórias improváveis

O milagre do Flamengo em 2009 e 2013

O Clube de Regatas do Flamengo, detentor de uma das maiores torcidas do Brasil, é um exemplo notório dessa capacidade de superação. Em 2009, o clube vivia um momento de profunda instabilidade financeira, com dívidas acumuladas e dificuldades operacionais que chegavam a comprometer o pagamento de salários. A situação era tão crítica que, conforme relatos da época, o clube “devia os calções” dos atletas. Foi nesse contexto que uma jogada ousada e, à primeira vista, desesperada foi feita: um acordo com o experiente meio-campo Dejan Petkovic para abater dívidas antigas, reintroduzindo-o ao elenco. O sérvio, já em fase final de carreira, não apenas se pagou em campo, mas se tornou o maestro de uma campanha improvável, liderando o time na conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano. Um título celebrado efusivamente, não como um protesto, mas como a culminação de uma história de fé e correção futebolística.

Quatro anos depois, em 2013, o Flamengo embarcava em uma ambiciosa jornada de saneamento financeiro sob a gestão do então presidente Eduardo Bandeira de Mello. A prioridade era estancar as sangrias financeiras, renegociar dívidas e reestruturar o departamento de futebol. Em meio a esse processo de “tapar buracos” e estabelecer uma gestão mais austera, o clube, ainda em transição, surpreendeu novamente ao erguer a taça da Copa do Brasil. Essa vitória, apesar de ocorrer em um período de reorganização e contenção de gastos, simbolizou a capacidade do Flamengo de conciliar a busca por estabilidade administrativa com a manutenção de um nível competitivo que permitisse a conquista de títulos de grande expressão nacional.

Corinthians: triunfos em meio à tempestade

Mais recentemente, o Sport Club Corinthians Paulista replicou, em certa medida, esse roteiro de sucesso em meio à turbulência. O clube alvinegro atravessou um período de crise multifacetada, considerada uma das piores de sua história. Envolto em uma dívida vultosa, com problemas de gestão que se desdobravam em esferas institucionais, financeiras, morais, e até mesmo investigações policiais e políticas, o Corinthians parecia ter todos os ingredientes para um ano desastroso em campo. No entanto, desafiando todas as expectativas, a equipe conseguiu conquistar o Campeonato Paulista, superando seu maior rival na final, e avançar na Copa do Brasil.

O trabalho do então treinador e de sua comissão técnica foi descrito como o mais desafiador de suas carreiras, operando em um ambiente “coberto de tapumes e de vergonhas explícitas e expostas”. A capacidade de isolar o elenco do turbilhão extracampo, de galvanizar os atletas e a torcida em torno de um objetivo comum, foi fundamental para essas conquistas. Mesmo diante de transfer bans que impediam a contratação de novos jogadores e perdas gigantescas de credibilidade e conceito, o Corinthians conseguiu, novamente, mostrar que a paixão e a mística de uma grande torcida podem impulsionar o clube a resultados que desafiam a lógica financeira e administrativa.

O paradoxo entre sucesso e desafios estruturais

Conquistas em campo e a sombra dos problemas

Esses exemplos, embora celebrem a resiliência e a capacidade de superação, não podem e não devem servir como chancela para a negligência em outras esferas da gestão de um clube. O que é bem feito com a esfera na grama — ou seja, o desempenho esportivo e as conquistas dentro de campo — não pode ser conspurcado em outras esferas. O sucesso no gramado, por mais glorioso que seja, não justifica nem apaga os maus exemplos fora de campo, a falta de transparência, a má conduta administrativa ou o desrespeito às regras.

O caso do Corinthians recente é emblemático nesse sentido. O clube, apesar de suas conquistas, não pode usar a euforia dos títulos como um salvo-conduto para adiar um choque de realidade ou ignorar os profundos problemas que o afligem. Empurrar a situação “com a barriga” e contar apenas com o talento dos atletas campeões para superar gigantescas perdas de credibilidade, de conceito, de contas e os desafios impostos por transfer bans, é uma estratégia perigosa. Gestores que permitiram a instalação dessas crises, que acumularam dívidas e que, por vezes, agiram de modos questionáveis — indo além de meros “cheques sem fundo” — deveriam ter suas ações reavaliadas e, em muitos casos, ser banidos ou transferidos de posições de poder no futebol.

O legado da “vitória a qualquer custo”

A história mostra que a mentalidade de que “de qualquer jeito, o Flamengo ganha” ou “mesmo na bagunça, o Corinthians supera” pode ser uma armadilha perigosa. Após a euforia de 2009, o Flamengo viveu anos em que essa “impregnação” de que o sucesso em campo era suficiente mascarou problemas administrativos sérios, cujas consequências só foram plenamente enfrentadas a partir de 2013. O temor é que o mesmo “pecado” se repita no Corinthians. Mesmo com o clube passando por todos os rivais na Copa do Brasil e garantindo sua vaga na Libertadores, recebendo prêmios significativos, a dívida “de mundos e fundos” e a persistência de “modos muitas vezes imundos” não podem ser ignoradas.

A repetição desse ciclo, onde as vitórias servem para justificar ou encobrir uma gestão caótica, é prejudicial a longo prazo. Ela cria uma cultura onde a responsabilidade e a ética são secundárias à glória imediata. É um lembrete de que o verdadeiro sucesso de um clube se mede não apenas pelas taças erguidas, mas pela solidez de suas estruturas, a transparência de suas operações e o respeito aos princípios de boa governança.

O futuro dos gigantes e a necessidade de mudança

A projeção para o Flamengo de 2025

Olhando para o futuro, o Flamengo de 2025 é muitas vezes projetado como a coroação de um trabalho que se iniciou de forma mais estruturada em 2013. A expectativa é que, com a continuidade de uma gestão financeira sólida e investimentos estratégicos no futebol, o clube não apenas reconquiste a América e o Brasil, mas também se estabeleça como uma força global. As projeções mais otimistas imaginam o Flamengo indo além, desafiando os campeões europeus em um Mundial de Clubes, talvez chegando aos pênaltis contra um PSG estelar ou até mesmo superando o campeão mundial em meio ao ano. Essa visão de futuro baseia-se na premissa de que a excelência administrativa e o alto desempenho em campo caminharão lado a lado, consolidando o clube em um patamar de grandeza sem precedentes.

Corinthians: o imperativo de uma nova gestão

Para o Corinthians, o choque de realidade é urgente. A persistência em “empurrar com a barriga” os problemas financeiros, institucionais e de credibilidade não é sustentável a longo prazo. A recuperação exige um compromisso firme com a transparência, a responsabilidade fiscal e a reestruturação de suas bases administrativas. As vitórias no campo, por mais emocionantes que sejam, não podem ser a única bandeira ou o único argumento para a manutenção de um modelo de gestão que comprovadamente gerou e continua a gerar instabilidade. O clube precisa banir ou transferir de seu ecossistema pessoas e práticas que deviam ser extirpadas do futebol, buscando um alinhamento entre a paixão de sua torcida e a integridade de sua administração.

O papel crucial do torcedor consciente

Nesse cenário complexo, o papel do torcedor consciente é mais vital do que nunca. É ele quem, ao mesmo tempo, celebra efusivamente as vitórias e conquistas em campo, mas também exige responsabilidade, transparência e ética dos dirigentes. O torcedor consciente sabe de tudo que foi feito errado, reconhece os “modos muitas vezes imundos”, mas ainda assim, celebra e sonha. Todavia, a celebração não pode inibir a vigilância e a cobrança. A esperança de que um “milagre tipicamente corintiano” aconteça novamente – onde o clube se ergue das cinzas para a glória – deve vir acompanhada da demanda por uma gestão que faça jus à grandeza da instituição. Que o Flamengo possa ser, de fato, um exemplo não apenas pelo que o clube faz em campo e em sua gestão, mas também pela forma como seus líderes se posicionam, evitando a perda da razão, do respeito e da humanidade em suas declarações e atitudes, que podem conspurcar a imagem de qualquer instituição, por mais vitoriosa que seja. O desafio é constante: aliar a paixão avassaladora do futebol brasileiro com a racionalidade necessária para construir clubes verdadeiramente perenes e exemplares.

Fonte: https://www.estadao.com.br

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