A Casa Branca, sob a administração do então presidente Donald Trump, publicou uma nova Estratégia de Segurança Nacional que sinaliza uma renovada e assertiva postura dos Estados Unidos em relação à América Latina. Esta abordagem, que remonta à histórica Doutrina Monroe, busca reafirmar a proeminência americana no hemisfério ocidental, vista como crucial para a segurança e prosperidade do país. Evidências dessa orientação incluem o bloqueio de navios petroleiros venezuelanos sancionados e o resgate financeiro concedido à Argentina, demonstrando a relevância estratégica que a região adquiriu para os objetivos de política externa de Washington. A diretriz, formalizada em um documento de 33 páginas, reflete uma visão de mundo focada em deter a imigração ilegal, combater o narcotráfico e fortalecer laços com parceiros ideológicos e comerciais.
Retorno de uma doutrina histórica
A nova Estratégia de Segurança Nacional delineada por Donald Trump expressa a decisão dos Estados Unidos de intensificar sua presença militar e ampliar sua influência na América Latina, retomando princípios que ecoam a Doutrina Monroe. Publicado em 4 de dezembro, o documento reflete a visão de “restaurar a força dos Estados Unidos no país e no exterior”, conforme assinalado em carta pelo próprio presidente Trump. As diretrizes revelam uma América Latina sob o escrutínio de Trump, com foco em frear a imigração ilegal, conter o avanço do narcotráfico e estreitar relações com aliados ideológicos e parceiros comerciais.
A visão de Trump para a região
Para alcançar esses objetivos, a administração Trump propôs uma retomada explícita da política externa formulada pelo ex-presidente James Monroe em 1823, cujo lema era “A América para os Americanos”. Naquela época, os Estados Unidos declararam sua intenção de proteger a região contra a expansão de potências de outros continentes. O documento atual reitera: “Depois de anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”. Esta reinterpretação, que alguns analistas apelidaram de “corolário Trump à Doutrina Monroe” ou “Doutrina Donroe”, uma combinação dos nomes Donald e Monroe, rapidamente ganhou destaque na imprensa internacional.
A ideia de ressuscitar a Doutrina Monroe não é inédita na história americana. Em 1904, o então presidente Theodore Roosevelt estabeleceu seu próprio “corolário Roosevelt”, defendendo a intervenção dos Estados Unidos em países da região que não conseguissem cumprir seus compromissos financeiros ou preservar suas democracias. Contudo, analistas como Will Freeman, pesquisador de Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores, apontam que a abordagem de Trump visa dar “novo alento a uma velha ideia”, servindo como uma justificativa ideológica para uma linha-dura na região, com ênfase na imigração. Freeman observa que o documento também faz menção a cartéis de drogas e “incursões estrangeiras hostis”, o que remete à versão original da doutrina. Apesar da retórica, muitos especialistas recomendam cautela, pois o chamado “corolário Trump” ainda é vago, e a política externa de Trump não apresentava a consistência necessária para ser considerada uma doutrina estratégica completa, mas sim uma declaração de princípios.
Interesses e preocupações na América Latina
Para a administração Trump, a América Latina é simultaneamente a origem de muitos desafios enfrentados pelos Estados Unidos e a chave para suas possíveis soluções. A nova Estratégia de Segurança Nacional detalha uma série de interesses e preocupações que fundamentam a renovada atenção à região.
Migração, narcotráfico e a influência externa
Um dos problemas centrais apontados no documento é a “migração ilegal e desestabilizadora” originária da América Latina. Cerca de metade dos imigrantes nos Estados Unidos provém do continente, com o México sendo a principal fonte. Para Will Freeman, “é a região do mundo que mais interessa para seus objetivos de política interna”, especialmente para um presidente que fez da questão migratória um pilar de sua plataforma. Além disso, o documento ressalta o perigo representado pelos cartéis de drogas, visto que grande parte da cocaína consumida nos Estados Unidos tem origem em países como Colômbia, Peru e Bolívia. Para o professor Bernabé Malacalza, autor do livro “As Cruzadas do Século XXI”, que aborda as relações entre os Estados Unidos e a China, essa nova arquitetura de segurança nacional concebe a América Latina como “parte da sua fronteira de segurança interna”. A região, segundo Malacalza, “adquiriu uma posição que antes não tinha”, em grande parte devido à importância crescente da segurança hemisférica para Washington.
A estratégia também aborda a necessidade de limitar “incursões estrangeiras hostis”, uma clara referência à crescente influência da China na região, embora o país asiático não seja mencionado nominalmente. No âmbito comercial, a administração Trump, guiada pelo slogan “America First” (Os Estados Unidos em primeiro lugar), buscou otimizar acordos com parceiros regionais. A nova estratégia defende o uso de “alíquotas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas”, uma prática já implementada com resultados variados em diversos países do continente. No caso do México, a Casa Branca reconheceu o impacto negativo das disputas comerciais sobre as empresas americanas, o que impulsionou Trump a buscar “consolidar acordos orientados ao nearshoring”, ou seja, a transferência de parte da produção para países próximos aos consumidores. A visão é que a região faz parte da reconfiguração das cadeias de valor globais. O documento expressa o desejo não apenas do crescimento das empresas americanas, mas também do fortalecimento das economias nacionais dos países aliados, visando intensificar as relações comerciais. “Um hemisfério ocidental economicamente mais forte e sofisticado se transforma em um mercado cada vez mais atraente para o comércio e os investimentos dos Estados Unidos”, afirma o texto. Freeman complementa que “os países da região representam impacto desproporcional sobre estes assuntos internos, muito importantes para Trump e que também interessam sua base política”.
Represálias e recompensas na política externa
A política externa de Trump em relação à América Latina, conforme delineada na Estratégia de Segurança Nacional, não se restringe a preocupações defensivas, mas também envolve um sistema de incentivos e possíveis retaliações.
Ações militares e apoio a aliados
Um exemplo palpável dessa postura foi a presença do porta-aviões USS Gerald R. Ford no Caribe, nas proximidades da costa venezuelana, em novembro. Essa movimentação militar não apenas serviu como pressão contra o governo venezuelano, mas também simbolizou os novos posicionamentos dos Estados Unidos em relação à segurança regional. A nova estratégia prevê o destaque de uma “presença mais adequada” e a realização de “destacamentos específicos” para o controle de fronteiras terrestres e rotas marítimas. O documento chega a abrir a possibilidade do “uso de força letal para substituir a fracassada estratégia baseada apenas na aplicação da lei das últimas décadas”, enfatizando que “a força é o melhor elemento de dissuasão” e deixando clara a opção por represálias na política externa. O governo Trump declarou que almejava reviver a ideia de “paz pela força”, o lema do ex-presidente americano Ronald Reagan, que se baseava no uso do poderio militar para garantir a estabilidade. Contudo, para o professor Bernabé Malacalza, a política de segurança em relação à América Latina “não configura uma arquitetura regional ou hemisférica, mas sim procura fazer com que os países se alinhem aos Estados Unidos e, em última instância, a Trump”.
Por outro lado, os Estados Unidos oferecem uma série de recompensas para seus aliados. A estratégia destaca que “recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que se alinharem amplamente aos nossos princípios e estratégia”. Essa política visa apoiar líderes e aliados regionais que sejam “capazes de promover uma estabilidade razoável na região”, auxiliando na contenção da migração ilegal e na neutralização de cartéis. Tais recompensas foram observadas em outubro, quando Trump anunciou um resgate de US$ 20 bilhões para a Argentina, e no mês seguinte, com a assinatura de acordos com o Equador, El Salvador e a Guatemala, além da própria Argentina, para a redução de alíquotas de importação. Em suma, os analistas consultados percebem que a chamada “Doutrina Donroe” enxerga a América Latina prioritariamente como um lugar de ameaças, em vez de oportunidades. Freeman resume a percepção predominante: “Eles se preocupam muito mais em evitar que as ameaças perigosas da América Latina cheguem aos Estados Unidos, segundo eles, do que em aproveitar as oportunidades oferecidas pela região”.
Fonte: https://g1.globo.com