Forças americanas lançaram um ataque aéreo contra o grupo Estado Islâmico (EI) na Nigéria, conforme anunciado por autoridades de Washington. A ação militar foi justificada pela acusação de que o grupo estaria “mirando e matando de forma brutal, principalmente cristãos inocentes”. Esta declaração ocorre semanas após ameaças de intervenção e em meio a uma crescente pressão de ativistas e políticos americanos, que há meses alertam para o que descrevem como uma perseguição sistemática de militantes islâmicos contra a comunidade cristã na nação da África Ocidental. No entanto, o governo nigeriano tem refutado veementemente essas alegações, classificando-as como uma deturpação da realidade. A complexidade do cenário de segurança no país, que enfrenta múltiplas crises e disputas não exclusivamente religiosas, torna a avaliação da situação um desafio e alimenta um intenso debate internacional.
Ação militar dos Estados Unidos e as acusações de perseguição religiosa
A postura de Washington e a reação nigeriana
A intervenção dos Estados Unidos na Nigéria veio à tona com a confirmação de que forças americanas atacaram alvos do Estado Islâmico (EI). A justificativa apresentada pelas autoridades americanas focou na proteção de cristãos, acusando o EI de direcionar sua violência contra essa comunidade de forma brutal e injustificada. Esta ação não surge isoladamente, mas é o culminar de meses de acusações e alertas emitidos por figuras públicas e grupos de ativistas em Washington, que têm clamado por uma resposta contundente à alegada perseguição.
Entre os mais vocais, o apresentador e comediante Bill Maher, em setembro, descreveu a situação na Nigéria como um “genocídio”, citando números alarmantes atribuídos ao grupo Boko Haram: mais de 100 mil mortos e 18 mil igrejas queimadas desde 2009. Números semelhantes ganharam força nas redes sociais e entre políticos americanos. Entretanto, a narrativa oficial do governo nigeriano, sediado em Abuja, diverge drasticamente. As autoridades nigerianas descreveram as acusações como uma “deturpação grosseira da realidade”. Embora não neguem a existência de violência letal no país, afirmam que “terroristas atacam todos aqueles que rejeitam sua ideologia assassina — muçulmanos, cristãos e pessoas sem religião”.
Analistas de segurança na Nigéria também questionam a exclusividade da vitimização cristã. Christian Ani, um especialista em segurança nigeriano, afirmou que, embora os cristãos tenham sido atacados como parte de uma estratégia de terror, a alegação de que são deliberadamente visados não é justificada. Ele ressalta que a Nigéria enfrenta uma variedade de crises de segurança em diferentes regiões, com causas distintas que não devem ser homogeneizadas sob uma única lente religiosa. Com aproximadamente 220 milhões de habitantes, divididos de forma relativamente equilibrada entre muçulmanos e cristãos, a complexidade dos conflitos vai muito além de uma simples dicotomia religiosa.
Origem e contestação dos dados sobre vítimas
Relatórios e sua metodologia sob escrutínio
A discussão sobre a precisão dos números que sustentam a narrativa de perseguição a cristãos na Nigéria é central para o debate. O senador do Texas, Ted Cruz, por exemplo, tem sido um defensor vocal da causa, citando números semelhantes aos de Maher: “desde 2009, mais de 50 mil cristãos na Nigéria foram massacrados, e mais de 18 mil igrejas e 2 mil escolas cristãs foram destruídas”. Embora seu gabinete tenha esclarecido que Cruz se refere a “perseguição” e não a “genocídio”, ele acusou as autoridades nigerianas de “ignorar e até facilitar o assassinato em massa de cristãos por jihadistas islâmicos”. O governo americano ecoou essas declarações, com o então presidente classificando a Nigéria como um “país desonrado” por “continuar permitindo a morte de cristãos”.
As autoridades nigerianas negam as acusações, afirmando que estão empenhadas no combate aos jihadistas e se mostram abertas à ajuda dos Estados Unidos, desde que não seja unilateral. A dificuldade em conter grupos violentos, como o Boko Haram (conhecido pelo sequestro das meninas de Chibok) e a Província do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP), é real, com relatos semanais de ataques e sequestros. Contudo, esses grupos atuam predominantemente no nordeste do país, uma região de maioria muçulmana, complicando a tese de que apenas cristãos são alvos.
A origem dos dados alarmantes citados por políticos americanos frequentemente remete à International Society for Civil Liberties and Rule of Law (InterSociety), uma organização não governamental que monitora violações de direitos humanos na Nigéria. Em um de seus relatórios mais recentes, a InterSociety afirmou que grupos jihadistas mataram mais de 100 mil cristãos desde 2009 e 60 mil “muçulmanos moderados” no mesmo período. No entanto, a organização não forneceu uma lista detalhada de suas fontes, dificultando a verificação independente dos números. Em resposta às críticas, a InterSociety justificou que “é quase impossível reproduzir todos os nossos relatórios e suas referências desde 2010”.
A análise de dados específicos, como os 7 mil cristãos supostamente mortos entre janeiro e agosto de um ano recente – número amplamente difundido nas redes sociais – revela inconsistências. Em cerca de metade das 70 reportagens da imprensa citadas pela InterSociety como fontes para esses ataques, a identidade religiosa das vítimas não é mencionada. Em um exemplo notável, uma matéria citada sobre um ataque não indicava que as vítimas eram “principalmente cristãs”, como afirmado pela InterSociety. A organização explica que realiza “análises adicionais” para identificar o perfil das vítimas, usando conhecimento sobre populações locais e “relatos da mídia cristã”, além de estimar mortes em cativeiro e incluir depoimentos de testemunhas não públicos. No entanto, uma soma independente dos números de mortes citados nas 70 reportagens resultou em cerca de 3 mil, não 7 mil, e alguns ataques parecem ter sido contabilizados mais de uma vez.
As complexas dinâmicas dos conflitos na Nigéria
Além dos grupos jihadistas: pastores Fulani e “bandidos”
A complexidade dos conflitos na Nigéria não se restringe apenas à ação de grupos militantes islâmicos como o Boko Haram e o ISWAP. Outros atores, como os pastores Fulani, também são mencionados como responsáveis por parte da violência, gerando uma camada adicional de controvérsia sobre a classificação desses confrontos. Os Fulani são um grupo étnico majoritariamente muçulmano, tradicionalmente dedicados à criação de gado e ovelhas em toda a África Ocidental. A InterSociety os descreve como “jihadistas” em seus relatórios, mas essa categorização é frequentemente contestada por pesquisadores da área.
Muitos analistas rejeitam a ideia de que os conflitos envolvendo pastores Fulani sejam puramente religiosos, argumentando que estão predominantemente ligados a disputas por terra e água. Esses pastores têm histórico de conflitos tanto com comunidades muçulmanas quanto cristãs em diversas regiões da Nigéria. O analista de segurança Christian Ani reforça essa visão, afirmando que “dizer que eles são jihadistas é um grande exagero. Isso não tem nada a ver com isso. Tem muito mais a ver com elementos criminosos e fora da lei”. Confidence McHarry, analista sênior de segurança da SBM Intelligence, concorda, apontando que os confrontos estão geralmente enraizados em tensões étnicas e na disputa por recursos. Embora o componente étnico possa levar à expansão territorial e a ataques a locais de culto, o que confere uma percepção religiosa, a raiz dos problemas muitas vezes é outra.
Além disso, a Nigéria enfrenta a ação de grupos conhecidos localmente como “bandidos”, especialmente no noroeste do país. A InterSociety menciona que esses grupos são majoritariamente Fulani e estão envolvidos em sequestros, além de assassinatos de cristãos e muçulmanos. Essa diversidade de atores e motivações evidencia que o cenário de segurança nigeriano é multifacetado e não pode ser simplificado a um único tipo de conflito.
O lobby político e os relatórios alternativos
A visão de outros grupos e a intervenção política em Washington
As preocupações com a situação dos cristãos na Nigéria não são novas nos círculos políticos dos Estados Unidos e entre grupos cristãos internacionais. No passado, o tema foi impulsionado pelo Indigenous People of Biafra (Ipob), um grupo separatista banido na Nigéria que busca a criação de um Estado independente no sudeste do país, predominantemente cristão. A InterSociety já foi acusada pelas Forças Armadas nigerianas de ter ligações com o Ipob, mas a organização nega veementemente qualquer conexão. Outro grupo separatista biafrense, o Governo da República de Biafra no Exílio (BRGIE), reivindicou um papel central na promoção da narrativa de “genocídio cristão” no Congresso dos Estados Unidos, descrevendo-o como um “esforço altamente orquestrado” que incluiu a contratação de empresas de lobby e reuniões com autoridades americanas, como o senador Ted Cruz, que se recusou a comentar sobre o assunto.
Contrariando os números da InterSociety, outras fontes de dados sobre violência na Nigéria apresentam panoramas distintos. A Acled (Armed Conflict Location & Event Data Project), uma organização que monitora de perto a violência na África Ocidental, utiliza fontes rastreáveis e verificáveis em suas análises. Ladd Serwat, analista sênior da Acled, afirmou que o número de 100 mil mortes, amplamente divulgado, incluiria todos os atos de violência política ocorridos na Nigéria e, portanto, não corresponderia apenas a cristãos mortos desde 2009. Segundo a Acled, pouco menos de 53 mil civis — tanto muçulmanos quanto cristãos — foram mortos em episódios de violência política direcionada desde 2009. No período mais recente, entre 2020 e setembro de um ano atual, a organização estimou cerca de 21 mil civis mortos em sequestros, ataques, violência sexual e uso de explosivos. A Acled identificou 384 incidentes em que cristãos foram especificamente alvo entre 2020 e setembro de um ano atual, resultando em 317 mortes, uma fração do total. Suas fontes incluem a mídia tradicional, redes sociais com relatos verificáveis, organizações de direitos humanos e parceiros locais.
Outra organização, a Open Doors, que pesquisa a perseguição a cristãos globalmente, foi citada por autoridades americanas para o número de 3.100 cristãos mortos em um período de 12 meses. No entanto, o relatório da Open Doors também indicou que 2.320 muçulmanos foram mortos no mesmo período. A organização também inclui “grupos terroristas fulani” em sua lista de responsáveis, atribuindo a eles quase um terço das mortes de cristãos em uma área do centro da Nigéria conhecida como Cinturão do Meio (Middle Belt). Frans Veerman, pesquisador sênior da Open Doors, observou que, embora cristãos continuem sendo alvos, “cada vez mais alguns muçulmanos também estão sendo atacados por militantes fulani”. Analistas como McHarry apontam para os muitos ataques violentos contra mesquitas e comunidades muçulmanas no noroeste do país, cuja percepção como conflito não religioso se dá, em parte, pelo fato de os perpetradores serem frequentemente também muçulmanos.
A intervenção dos Estados Unidos na Nigéria, embora justificada pela proteção de minorias religiosas, ocorre em um contexto de informações complexas e por vezes contraditórias. O cenário de segurança nigeriano é marcado por múltiplas camadas de conflito, que vão desde a insurgência jihadista até disputas por recursos e tensões étnicas, afetando indiscriminadamente diversas comunidades, tanto cristãs quanto muçulmanas. A dificuldade em verificar a totalidade e a natureza exata das vítimas sublinha a necessidade de uma análise mais aprofundada e nuançada para além das simplificações, assegurando que as ações internacionais sejam informadas por uma compreensão completa da realidade no terreno e não apenas por narrativas parciais.
Fonte: https://g1.globo.com