Um mês após terremotos devastadores que deixaram mais de 5 mil mortos na Venezuela, o futebol se tornou um palco de emoção e alento. O jogo entre UCV e Santos pela Copa Sul-Americana, em Valência, marcou o primeiro evento esportivo internacional no país, atraindo famílias em busca de distração.
Para muitos, como a família Mejías, que perdeu seu apartamento e amigos em La Guaira, a partida ofereceu um respiro em meio ao trauma, evidenciando o poder do esporte como catarse social.
Lizmar Mejías, seu marido Raymond e seus dois filhos, de 7 e 13 anos, viajaram de La Guaira — a região mais atingida — até Valência para o jogo. "Nosso apartamento ficou de pé, mas internamente as paredes cederam", relata Lizmar, que busca no esporte uma válvula de escape para o choque das crianças, que perderam amigos nos sismos. "Precisamos disso para a saúde mental", afirma.
O clube da Universidad Central de Venezuela (UCV) precisou jogar fora de Caracas, pois seu estádio foi danificado. O evento mobilizou torcedores de diversos times, como Eduardo Rodríguez, professor de ciências sociais, que viu no jogo um apoio ao futebol nacional e à necessária catarse. "O venezuelano é muito unido. O desastre foi em La Guaira, mas a Venezuela se uniu", acrescenta Lizmar, orgulhosa.
Antes da partida, um minuto de silêncio homenageou as vítimas dos terremotos e, especialmente, o jovem prodígio Yimvert Berroterán, meio-campista da UCV e internacional sub-17, que faleceu no desastre. Em tributo, o clube retirou a camisa 20 de circulação e agora todas as peças do time exibem um pequeno número 20. "Foi um golpe muito forte para a instituição", desabafa o goleiro Giancarlo Schiavone, emocionado.
Apesar do desejo de homenagear o companheiro, a UCV foi superada pelo Santos, perdendo por 4 a 1. Schiavone admite as semanas complicadas, com jogadores envolvidos em centros de coleta de doações. Contudo, ele enfatiza a importância de seguir em frente. "Para as crianças é muito importante visualizar o futebol, se distrair", pondera, reafirmando a fé na recuperação do país.
Mesmo diante de um cenário desolador, a Venezuela demonstra resiliência e aposta no esporte como um importante caminho para a recuperação e a esperança.