Nos últimos anos, o cenário alimentar no Brasil tem passado por mudanças significativas, impulsionadas pela popularização de medicamentos chamados de "canetas emagrecedoras", que têm promovido uma nova mentalidade em relação à alimentação. A psicanalista Luciana Saddi, especialista em saúde mental e comportamento alimentar, aponta que essa transformação traz consigo um fenômeno preocupante: o medo da comida. Esse medo não é recente, mas suas manifestações se intensificaram com o advento desses tratamentos. A relação com a alimentação, que é um dos principais pilares da socialização, está se tornando cada vez mais complexa, resultando em um isolamento social crescente. Neste contexto, é fundamental entender os impactos desse comportamento na dinâmica das refeições e nas interações sociais.
O medo de comer: uma fobia crescente
Luciana Saddi, em suas observações clínicas, destaca que o medo de comer vem se intensificando nas últimas décadas. Esse fenômeno, que possui raízes que remontam aos anos 50, é frequentemente descrito como uma fobia, ou seja, um medo irracional que pode se manifestar de diversas formas. A alimentação, uma necessidade básica e uma fonte de prazer, passa a ser encarada com receio, especialmente diante da influência de discursos médicos que demonizam certos alimentos. Esses discursos são frequentemente acompanhados por uma busca incessante por padrões de beleza e saúde associados à magreza.
A influência das canetas emagrecedoras
Com a introdução de medicamentos como Mounjaro, Wegovy e Ozempic, que têm se tornado populares entre aqueles que buscam emagrecer, a percepção da alimentação e do corpo sofreu uma nova reconfiguração. Saddi aponta que, embora essas canetas representem uma alternativa mais avançada em comparação a medicamentos anteriores, como anfetaminas, elas ainda estão inseridas em um contexto que valoriza a saúde e a beleza atreladas à magreza. Isso gera um ciclo vicioso, onde o medo de consumir certos alimentos se intensifica, levando a uma relação cada vez mais tensa com a comida.
Impactos sociais do medo da comida
O medo de comer não afeta apenas a saúde individual; ele tem repercussões sociais profundas. Segundo a psicanalista, esse comportamento pode resultar em um aumento do isolamento social. A prática de sentar à mesa, que tradicionalmente serve como um espaço de socialização e convivência, está sendo substituída por hábitos que afastam as pessoas umas das outras. Em um mundo onde as interações frequentemente ocorrem por meio de telas, o ato de compartilhar uma refeição se torna uma exceção, não a regra.
A dualidade da alimentação na sociedade moderna
A sociedade contemporânea vive uma dualidade em relação à alimentação. De um lado, há uma oferta crescente de alimentos ultraprocessados, que são projetados para serem consumidos em grandes quantidades. De outro, surgem discursos que promovem a restrição e a proibição de certos alimentos, apresentados como perigosos. Essa contradição gera confusão e ansiedade em relação ao comer. Enquanto as redes sociais e a mídia promovem conteúdos que celebram a comida, ao mesmo tempo incitam a culpa e o medo de ingerir alimentos, criando um ambiente hostil para aqueles que buscam uma relação saudável com a alimentação.
Reflexões sobre a alimentação e a socialização
A perda da prática de refeições compartilhadas resulta em uma diminuição do contato físico e emocional entre as pessoas. Historicamente, a alimentação sempre foi um momento de união, onde famílias e amigos se reuniam para compartilhar não apenas comida, mas experiências e afetos. A mudança nesse comportamento pode ter efeitos duradouros na saúde mental e nas relações interpessoais, uma vez que a alimentação é uma das formas mais primárias de interação humana. A psicanalista enfatiza que restaurar esse vínculo pode ser crucial para reverter o isolamento social que o medo da comida tem causado.
Fonte: https://www.estadao.com.br