Após décadas de separação, as irmãs Jenifer de la Rosa e Ángela Rendón iniciam a construção de uma nova vida juntas, um futuro impensável até recentemente. Jenifer, apelidada de “filha do vulcão” devido à sua sobrevivência, tinha apenas uma semana de vida quando a avalanche de 1985 devastou Armero, a cidade onde vivia com seus pais. A erupção do vulcão Nevado del Ruiz resultou em uma torrente de lama, água e pedras, ceifando a vida de aproximadamente 20 mil dos 29 mil habitantes da cidade colombiana, além de outras 5 mil mortes em municípios vizinhos.
Armero, hoje um memorial a céu aberto no departamento de Tolima, atrai anualmente turistas e vítimas que percorrem suas ruínas, cemitérios e monumentos. Enquanto alguns sobreviventes permaneceram nas proximidades, muitos outros, incluindo centenas de crianças, seguiram caminhos distintos.
“Fui adotada por um casal espanhol e não voltei à Colômbia por 30 anos. Então, descobri que tinha uma irmã, sobre a qual nunca soube de nada; nem eu, nem meus pais adotivos”, relata Jenifer, hoje jornalista. Estima-se que cerca de 500 crianças foram colocadas para adoção, tanto por meio de processos regulares quanto irregulares, após a tragédia.
No dia da tragédia, as cinzas do vulcão já anunciavam o desastre iminente. Às 21h, os fluxos vulcânicos derreteram parte do gelo e da neve nas encostas, provocando deslizamentos e inundações. A mistura de água, solo e sedimentos formou uma massa que destruiu Armero, asfixiando milhares de pessoas sob escombros e lama.
Dorian Tapazco Téllez, mãe de Jenifer, sobreviveu inicialmente e chegou a um abrigo com a filha nos braços. “Eu era o bebê mais novo ali. Uma socorrista da Cruz Vermelha me contou que minha mãe retornou aos escombros da casa e nunca mais voltou. Da minha mãe, nunca soube de mais nada, só que mudou de nome”, conta Jenifer. Seu pai também faleceu na tragédia.
Criada na Espanha, Jenifer sempre sentiu a necessidade de conhecer suas origens. Aos 30 anos, decidiu retornar à Colômbia e investigar seu passado, o que a levou a contatar a Fundação Armando Armero e a mergulhar em um processo de busca por sua mãe biológica.
Em 2016, ao pesquisar o nome de sua mãe, Jenifer encontrou uma notícia sobre Ángela Rendón, outra mulher adotada que também procurava por sua mãe, chamada Dorian Tapazco Téllez. Após um teste de DNA, confirmou-se que Jenifer e Ángela eram irmãs, separadas pela tragédia de Armero.
O reencontro das irmãs, marcado por emoção e surpresa, ganhou grande repercussão. No entanto, a busca pela mãe biológica trouxe à tona frustrações e questionamentos sobre as adoções irregulares ocorridas após a tragédia. Há relatos de que informações foram ocultadas nos prontuários e que houve pagamentos envolvidos nos processos de adoção.
Jenifer expressa a sensação de que algumas pessoas sabem mais do que revelam e que falta transparência por parte das autoridades. O Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar anunciou a digitalização de registros de menores resgatados após a avalanche, mas reconhece as “lacunas” na legislação da época, o que dificulta a identificação de irregularidades nas adoções.
Apesar das dificuldades, a Fundação Armando Armero continua a trabalhar para reunir famílias separadas pela tragédia, e o caso de Jenifer e Ángela reacende a esperança para muitos sobreviventes que ainda buscam seus entes queridos.
Fonte: g1.globo.com