O pão de ló é um doce tradicional português que vai muito além do que o conceito de bolo fofo sugere. No Brasil, essa receita é frequentemente associada à tradição conventual de Portugal, onde o doce se consolidou como uma massa neutra, leve e aerada, ideal para receber recheios, caldas e coberturas. No entanto, suas origens remetem a uma história rica, marcada por várias variações regionais que conferem sabores e texturas distintas ao prato. A seguir, exploraremos as características e as particularidades do pão de ló em Portugal, bem como seu impacto na gastronomia contemporânea.
A diversidade do pão de ló em Portugal
O pão de ló é um doce que apresenta diferentes interpretações em Portugal. Uma das versões mais conhecidas é o pão de ló de Ovar, originário da região de Aveiro. Este doce é notório por seu centro cremoso, que se assemelha a uma consistência quase crua, envolto em uma fina camada cozida. Tradicionalmente assado em formas de barro forradas com papel, o pão de ló de Ovar é frequentemente consumido ainda morno, utilizando colheres para saborear sua textura voluptuosa, rica em gemas, que lembra mais um creme do que um bolo propriamente dito.
A versão de Alfeizeirão
Outra variação significativa é o pão de ló de Alfeizeirão, que também preserva um interior mole, mas apresenta uma borda ligeiramente mais firme. Esta versão destaca um contraste mais pronunciado entre a crosta cozida e o coração fluido, proporcionando uma experiência sensorial diferente. Ambas as receitas refletem a intenção de celebrar a transição entre um bolo e uma sobremesa de colher, valorizando o equilíbrio perfeito entre a textura e o sabor.
O reconhecimento contemporâneo do pão de ló
Nos últimos anos, o pão de ló tem conquistado espaço na gastronomia moderna, sendo reinterpretado por chefs renomados. Um exemplo é a introdução de uma receita da chef Lídia Brás pela TAP Air Portugal, servida na classe executiva de voos partindo de Lisboa. Essa versão, embora simples, reflete a tradição e a qualidade dos ingredientes, fazendo uma ponte entre o legado culinário e a modernidade.
O chef Vasco Coelho Santos
Vasco Coelho Santos, um chef estrelado do Porto, também se destaca ao apresentar sua própria interpretação do pão de ló em sua propriedade no Alto Douro. Com uma receita que prioriza poucos ingredientes e uma técnica rigorosa, ele serve uma versão com um centro cremoso que mantém viva a essência do doce. Em suas palavras, o prato é um gesto final simples e honesto, que reflete a tradição da região e a intimidade com as memórias familiares associadas a esta receita.
Tradicional e contemporânea: a essência do pão de ló
O pão de ló também é celebrado por outros chefs, como José Avillez, que ocasionalmente o incorpora ao final de seus menus degustação no restaurante Belcanto, reconhecido com duas estrelas Michelin. Nesse contexto, o prato é servido de forma elegante, com colheradas generosas que atraem os comensais a se entregarem à experiência de saborear a sobremesa. A forma de servir, que remete a um ritual de compartilhar, mostra como o pão de ló transcende o mero ato de comer, tornando-se uma celebração da cultura portuguesa.
A textura cremosa e quase indecorosa do pão de ló é um testemunho das tradições conventuais que moldaram sua evolução. Como um doce que valoriza a abundância de gemas, ele continua a ser um símbolo de festividades e rituais de partilha, sempre desafiando a linha entre bolo e sobremesa, e reafirmando seu lugar especial na culinária tanto em Portugal quanto no Brasil.
Fonte: https://www.estadao.com.br