Por Angel Morote
Prefeito do Rio foi flagrado usando bengala e óculos escuros em tom de deboche; instituições que atuam na causa exigem retratação oficial contra o desrespeito
Um episódio protagonizado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, durante o Carnaval na Marquês de Sapucaí, atravessou a fronteira da diversão e entrou no campo do desrespeito. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o chefe do executivo carioca utilizando uma bengala de sinalização e óculos escuros, simulando ser uma pessoa com deficiência visual enquanto caminhava pelo sambódromo.
A atitude, que rapidamente viralizou, foi duramente criticada por ativistas, entidades ligadas aos direitos das Pessoas com Deficiência (Pcd) e cidadãos que convivem com a cegueira ou baixa visão. O gesto foi classificado como capacitismo— o preconceito social contra pessoas com deficiência — praticado de forma recreativa por uma autoridade que deveria prezar pela inclusão.
O Oportunismo e o Declínio da Empatia
Para muitos, a cena de Paes não pode ser tratada como um simples ato de distração ou “zoeira” carnavalesca. A utilização de instrumentos de autonomia, como a bengala, em tom de mofa, reforça estigmas e ridiculariza as lutas diárias de quem depende desses equipamentos para se locomover com segurança e dignidade.
Muitos deficientes visuais sentiram-se profundamente desrespeitados com o que chamaram de “oportunismo político” e falta de sensibilidade. A crítica central recai sobre o fato de um gestor público, que detém o poder de implementar políticas de acessibilidade na capital, usar sua visibilidade para ridicularizar uma condição física em busca de risadas ou atenção.
Reclamação Oficial das Instituições
O caso ganhou contornos mais graves com o posicionamento de órgãos de classe. Instituições que apoiam, realizam serviços e lutam pelo bem-estar de deficientes em todo o estado estão se mobilizando para apresentar reclamações oficiais contra o prefeito. Essas organizações reforçam que o capacitismo recreativo não pode ser tolerado, especialmente vindo de quem deveria dar o exemplo de cidadania.
Em comunicados, as entidades destacam que a brincadeira ignora as barreiras arquitetônicas, a falta de piso tátil e os desafios de transporte que a própria prefeitura do Rio ainda falha em resolver plenamente. O episódio evidencia um declínio na ética institucional em troca de uma falsa “irreverência” que fere a dignidade humana.
Repercussão
Até o momento, o gabinete do prefeito não emitiu uma nota oficial de retratação que satisfizesse as associações de classe, que agora exigem não apenas desculpas, mas ações concretas que compensem o dano moral causado à comunidade. O silêncio do executivo diante da revolta das instituições especializadas apenas aumenta o desgaste da imagem do político junto à causa PcD.