Após mais de 25 anos de negociações, o tão aguardado acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul finalmente se concretizou, embora atualmente esteja em análise pelo Tribunal de Justiça da UE para verificar sua conformidade com as leis do bloco. A importância desse tratado é enorme, abrangendo um mercado de mais de 720 milhões de consumidores. Um dos principais focos do acordo reside na proteção e promoção de produtos com Indicação Geográfica (IG), que garantem a autenticidade e a qualidade de itens tradicionais de ambas as regiões. A expectativa é que produtos como vinhos, queijos e azeites europeus se tornem mais acessíveis no Brasil, assim como os produtos do Mercosul ganharão destaque no mercado europeu.
Impactos da Indicação Geográfica no comércio
A Indicação Geográfica é um tema central no acordo, servindo como uma cláusula de proteção contra a imitação de produtos tradicionais. Essa prática é especialmente relevante para alimentos e bebidas, onde a origem e a produção estão intimamente ligadas à qualidade. Com isso, queijos como Gorgonzola e Parmesão, feitos no Brasil, precisarão passar por adaptações, enquanto bebidas tradicionais, como o Conhaque, não poderão mais ser comercializadas sob essa denominação. Em contrapartida, produtos brasileiros, como o queijo da Canastra e a cachaça, terão sua produção e comercialização protegidas.
Café: desafios e oportunidades
O setor do café apresenta um panorama distinto dentro do acordo. A previsão é que os embarques de café cru mantenham seu ritmo até 2025, com a Alemanha se destacando como o principal importador de cafés brasileiros. Contudo, a queda nas importações pelos Estados Unidos, devido a incertezas políticas, pode impactar o mercado. As origens brasileiras com IG, como Cerrado Mineiro e Norte Pioneiro do Paraná, não devem experimentar um avanço significativo no comércio europeu, uma vez que se tratam de matéria-prima, ao contrário de produtos acabados que possuem uma identidade mais forte.
Identidade dos produtos com IG
A Indicação Geográfica é mais eficaz quando aplicada a produtos prontos para o consumo, como vinhos e queijos, cuja identidade é moldada desde a origem até a elaboração. No caso do café, a IG faz sentido principalmente após o processo de torra, quando as características da matéria-prima são preservadas. É importante considerar que cada torrefação apresenta um estilo distinto, e um mesmo grão pode resultar em sabores variados dependendo da técnica empregada na torra.
Estratégias de mercado para cafés especiais
Para minimizar a variação sensorial que pode ocorrer durante a torra, origens renomadas, como Kona (Havai) e Blue Mountain (Jamaica), permitem que blends utilizem seus nomes a partir de 30% de seus grãos na composição. Isso pode ser uma estratégia interessante para a indústria de torrefação europeia, que verá facilitada a entrada de diversos rótulos no Brasil, com apelo junto aos amantes de café. Marcas como a suíça Nestlé, através de sua linha Nespresso, e a alemã Melitta, estão se preparando para essa nova dinâmica, oferecendo cafés de diferentes países, como Quênia e Índia, ampliando as opções para o consumidor brasileiro.
Expectativas para o futuro do mercado
À medida que o acordo UE-Mercosul avança, as expectativas para o mercado são altas. Os consumidores brasileiros poderão experimentar uma maior variedade de produtos europeus, enquanto os produtos do Mercosul encontrarão novas oportunidades na Europa. O sucesso desse intercâmbio comercial dependerá da adaptação das indústrias e do consumo consciente, além da capacidade de cada região de explorar suas particularidades e tradições. O futuro do mercado será monitorado de perto, à medida que as mudanças se desenrolam e o impacto do acordo começa a ser sentido por ambos os lados.
Fonte: https://www.estadao.com.br